Desinfetantes estão cada vez menos eficazes contra algumas superbactérias de hospital

As bactérias estão consistentemente vencendo a guerra contra os nossos antibióticos, suscitando medos de um futuro que lembre a Inglaterra vitoriana da pior maneira possível. Um novo estudo publicado nesta quarta-feira (1), na Science Translational Medicine, certamente irá alimentar esse medo existencial. Ele sugere que pelo menos algumas bactérias espalhadas por hospitais estão começando a se defender de desinfetantes à base de álcool.

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Os pesquisadores australianos por trás do estudo estavam tentando entender um paradoxo preocupante. Desde 2002, hospitais na Austrália adotaram e promoveram o uso bastante difundido de desinfetantes à base de álcool para os seus médicos — uma tendência que agora é padrão no país e em outros lugares do mundo também. Os pesquisadores descobriram que, três anos depois, esses programas desaceleraram a taxa de certas infecções resistentes a antibióticos, como a Staphylococcus aureus resistente a meticilina (MRSA, na sigla em inglês), dentro de hospitais. Porém, nos últimos anos, os médicos notaram que a taxa de outras infecções resistentes a medicamentos em hospitais, especialmente aquelas causadas pela bactéria Enterococcus faecium, cresceram desde a adoção dos desinfetantes para as mãos.

Na esperança de descobrir o motivo, eles compararam amostras de E. faecium coletadas em dois grandes hospitais australianos antes e depois da introdução progressiva desses desinfetantes, de 1997 a 2015. Eles expuseram as diferentes levas de germes a uma solução desinfetante feita de 23% de álcool de isopropila. Eles descobriram que, depois de 2010, as bactérias se tornaram visivelmente mais propensas a sobreviver ao banho de álcool, tendo uma tolerância média dez vezes maior do que as bactérias mais antigas.

Como os desinfetantes geralmente são feitos com 70% de álcool, os pesquisadores criaram, a seguir, um experimento mais real. Eles expuseram diferentes cepas de E. faecium a camundongos que viviam em uma gaiola desinfetada com um antisséptico alcoólico comum e então mediram (por meio de pelotas de cocô) a facilidade com que as bactérias colonizavam as entranhas dos camundongos. Mais uma vez, eles descobriram que as cepas tolerantes ao álcool prosperaram mais nessas condições.

Essas cepas, escrevem os autores, podem estar minando “a eficácia das precauções padrão dos desinfetantes à base de álcool”.

Explicando de maneira bem simples, o álcool mata as bactérias ao mexer com sua membrana celular de várias maneiras ao mesmo tempo, fazendo com que elas explodam. Esse mecanismo de morte é muito mais rápido e distintamente diferente de como os antibióticos normalmente matam as bactérias. Por isso, acredita-se que as bactérias (e alguns vírus) não podem se adaptar facilmente ao álcool. Mas, infelizmente, esse novo estudo não é o primeiro a mostrar que as bactérias, incluindo espécies que podem causar doenças, podem às vezes derrotar nossas armas à base de álcool.

No atual estudo, a taxa de tolerância ao álcool foi aproximadamente a mesma tanto nas cepas resistentes a antibióticos quanto nas cepas “normais” de E. faecium, sugerindo que diferentes mutações genéticas, separadas daquelas responsáveis ​​pela resistência a antibióticos, são responsáveis ​​por sua resistência ao álcool. No entanto, por causa da pouca atenção dada à tolerância ao álcool entre as bactérias, não há qualquer noção clara do tamanho do problema ou de quantas outras espécies poderiam estar desenvolvendo sua própria tolerância.

Globalmente, segundo os pesquisadores, as infecções por Enterococcus são responsáveis ​​por 10% dos casos de bacteremia obtida no hospital, uma infecção no sangue que pode levar a uma sepse frequentemente fatal; na Austrália, cerca de um terço dessas infecções é causado pela bactéria E. faecium resistente a medicamentos.

Os pesquisadores são cautelosos e apontam que essas descobertas não são definitivas. São necessários mais estudos de outros hospitais ao redor do mundo para podermos ter certeza de alguma coisa. E mesmo que alguma bactéria esteja se adaptando para resistir ao álcool, isso não nega o valor desses desinfetantes.

“Desinfetantes à base de álcool permanecem como uma importante defesa primária geral contra a transmissão cruzada da maioria dos patógenos microbianos e de alguns virais, ema ambientes de assistência médica”, disseram os autores.

Eles acrescentaram que são necessários esforços para garantir que os profissionais médicos estejam usando esses desinfetantes apropriadamente. Assim como com antibióticos, as bactérias podem estar sobrevivendo e se tornando mais tolerantes se estiverem sendo expostas a níveis diluídos de desinfetantes, ou porque os médicos não estão esfregando suas mãos por tempo suficiente ou por causa do tipo da solução mesmo — os autores apontaram que espumas ou géis podem ser menos eficazes do que os líquidos.

Portanto, na próxima vez em que você estiver no hospital, certifique-se de usar uma quantidade generosa de desinfetante à base de álcool e esfregue bem, até que suas mãos estejam completamente secas.

[Science Translational Medicine]

Imagem do topo: AP

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